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África SubsaharianaArtículos

Seguridad vital para África. Martinho Júnior

SEGURANÇA VITAL PARA ÁFRICA.

COMO ENFRENTAR A TENSÃO MILENAR ENTRE SEDENTARIZAÇÃO E NOMADIZAÇÃO EM ÁFRICA.

ABORDAR TRANSPARENTE E DESASSOMBRADAMENTE AS CAUSAS DOS DESEQUILÍBRIOS EM ÁFRICA, A FIM DE ENFRENTAR AS INESGOTÁVEIS CONSEQUÊNCIAS DA CONFERÊNCIA DE BERLIM.

UM APONTAMENTO ACTUAL.

Se há continente onde os riscos que recaem sobre a espécie humana são extraordinariamente palpáveis, numa época em que o planeta já está afectado e o homem pode desaparecer enquanto espécie, esse continente é África!

Explico:

Para além das tensões milenares que afectam, sob o ponto de vista da antropologia cultural, os relacionamentos entre processos de nomadização e processos de sedentarização, a Conferência de Berlim abriu espaço a ingerências, artifícios e manipulações de tal ordem que a vulnerabilização não só não terminou (África é uma ultraperiferia económica global), como vão ganhando algum espaço as tendências para a neocolonização, em especial para aqueles que não têm assumido a consciência da necessidade de mudança de paradigma.

Numa conjuntura como essa, as questões que se prendem à segurança vital estão indexadas à água interior de todo o continente e por tabela à necessidade de dar continuidade à luta de libertação, pois o estado de subdesenvolvimento que afecta África é permissivo a impactos de ingerência e de manipulação, sobretudo em função dos expedientes de domínio do campo “ocidental” que responde ao diktat anglo-saxónico da hegemonia unipolar!

A segurança vital só se pode equacionar em África seguindo a trilha da multilateralidade, implicando capacidades tecnológicas e técnicas que, chegando de fora do continente, obrigam por outro lado aos próprios africanos a um esforço colectivo capaz de muito diálogo, busca incessante de consensos e busca de gestão comum de recursos como a água, ou seja, um conjunto muito alargado de interligadas e interconectadas questões que não devem ser alguma vez deixadas noutras mãos (é o caso corrente da barragem em construção no Nilo Azul, que requer a busca de consensos da Etiópia, do Sudão e do Egipto)!

A gestão do recurso água implica independência, soberania e sabedoria comum que abre horizontes de desenvolvimento sustentável a muito longo prazo (em benefício das presentes como das futuras gerações), pelo que qualquer artifício que implique outros interesses que não os africanos, deve ser considerado de ameaça potencial, ou mesmo um risco.

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BARRAGENS DE ANGOLA – Barragem de Capanda – Para recordar: o fantoche Savimbi, na altura ao serviço do “apartheid”, da inteligência portuguesa e da CIA, fez tudo para inviabilizar a construção da barragem de Capanda – A barragem de Capanda teve o seu inicio de construção em Janeiro de 1987 durante este tempo houve uma serie de acontecimentos, como a guerra civil em Angola que fez com que as obras parassem. A sua data oficial da inauguração ocorreu assim em 2005. – https://welcometoangola.co.ao/barragens-de-angola/

 

BARRAGENS. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E INVESTIMENTOS MULTILATERAIS.

A atenção de África sobre o recurso água segundo procedimentos programados, deve recair sempre, no que aos rios diz respeito, sobre a região das nascentes das bacias hidrográficas, depois sobre as regiões do curso médio dos rios e finalmente sobre a embocadura dos fluxos de água nos oceanos.

Em relação aos lagos interiores os cuidados devem incidir particularmente na sua gestão a fim de evitar sua extinção e/ou contaminação (casos exponenciais dos lagos Chade, em extinção, ou do conhecido por Vitória, exemplo de contaminação).

A gestão das nascentes implica estudos científicos multifacetados (ciências que contribuem para o estudo do ambiente, ciências que se debrucem sobre as questões geológicas, ciências que estudam a fauna e a flora e por fim ciências humanas), que devem fomentar investigações constantes, assim como recolher a acumulação de dados quotidianos, decénio a decénio, de forma a estabelecerem-se os padrões alargados de conhecimento sobre as tendências de sua evolução.

A grande obrigação em relação às nascentes é a sua preservação, pois se não existirem as nascentes, os rios esgotam-se desde a sua raiz, pelo que há um conjunto de limitações e de controlos a equacionar, particularmente as que inibem ou evitem impactos em função da acção humana.

O ideal é que não haja acção humana em torno das nascentes num raio que deve ser estabelecido conforme o conhecimento cientificado de cada caso.

Nos cursos médios deve-se obrigar a proteger as margens, variando as distâncias dos cuidados a ter; para os rios mais caudalosos, mais de 100 metros ao redor do leito deve ser o padrão nas áreas aluvionares (para os empreendimentos agrícolas que recorrem a máquinas), mas a distância pode encurtar nas áreas onde há rochas no leito e nas margens.

É nos cursos médios que podem e devem ser erigidas as barragens, em especial ali onde haja degraus desde a altitude até ao nível do mar; mesmo assim as decisões só devem ser tomadas em função de aturados estudos científicos (com o mesmo espectro do que acima se refere em síntese), de forma a melhor equacionar as medidas que se devam tomar em termos de sustentabilidade do desenvolvimento, que obrigam a uma apurada gestão ambiental.

O último troço dos rios é também importante saber gerir, equacionando os fenómenos; se por exemplo um rio atravessar um deserto, perde água, ou pode ser que desapareça à superfície do solo (aparece sazonalmente, ou mesmo esporadicamente).

A construção de barragens nos cursos médios dos rios é fundamental como garante de revolução cultural capaz de ser estimulada em termos de desenvolvimento sustentável: possibilita a irrigação (devem ser equacionadas as questões ambientais e estudos de solo e subsolo para cada tipo de cultura que se fizer), e possibilita a produção de energia imprescindível para impactos sobre os modos de produção humana, algo que em África é prioritário nas imensas regiões rurais onde o homem vive em regime de recolecção, ou de autossubsistência.

A segurança vital nutre-se de todo esse expediente construtivo que deve ser saudável e não doentio, obrigando África a optar quando se colocam as questões técnicas e tecnológicas para a realização dos projectos inadiáveis que estão na base dessa revolução cultural.

É assim que se chega à seguinte conclusão: os melhores procedimentos, tendo em conta a aplicação de técnicas e tecnologias que os africanos ainda pouco dominam, resultam melhor em função das possibilidades e das capacidades multilaterais (desde as questões económico-financeiras, até às empreitadas da construção).

Neste momento a República Popular da China lidera nesse esforço (por exemplo no financiamento e na construção de barragens como a do Grande Renascimento Etíope, no Nilo Azul, o braço do Nilo a leste do seu curso, ou a de Caculo Cabaça, em Angola, no curso médio do rio Cuanza).

A Rússia também participa na construção de barragens e, a título de exemplo, foi com essa parceria e a brasileira que em Angola se construiu a barragem reitora do curso em socalcos do Médio Cuanza, a barragem de Capanda.

Os conceitos da Nova Rota da Seda, que levam também à adesão de África, com as possibilidades e capacidades da República Popular da China são alargados em função das questões que se prendem à revolução cultural que esvanece as tensões entre culturas milenares de nomadização e de sedentarização que incidem em vastas regiões de África, desde o Sahel à África Austral.

Há um deficit crescente de água interior na África Austral, apesar de bacias importantes como a do Congo e a do Zambeze, colocando-se cada vez mais a África do Sul sobre o vermelho (ainda há pouco a cidade do Cabo, por exemplo, esteve muito afectada pela falta de água).

Esse deficit existe também e cada vez mais em relação à energia limpa, gerada a partir das barragens nos rios, pelo que a interconexão energética da barragem do Inga na RDC, até à África do Sul, é um assunto inesgotável, para ontem!

Em Angola, à medida que a energia limpa chegar de forma consistente às áreas rurais onde as comunidades humanas vivem de recolecção, de culturas de autossubsistência ou de pastorícia em itinerância, assim se está a fazer a revolução cultural, pois a energia irá fazer alterar profundamente os modos de produção, introduzindo-se entre outras coisas a máquina e as novas tecnologias, uma experiência recente e corrente também na China!

Jamais será numa base colonial, ou neocolonial, ou sob o jugo imperialista da hegemonia unipolar ciosa de sua musculatura militar, que se pode alcançar, numa base de respeito pela independência e soberania angolana, um objectivo dessa natureza!

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Barragem do Inga: Falsa esperança para o povo congolês? – “Temos que entrar na avenida do progresso e contribuir para o futuro de todo o continente africano”, defende o chefe do Governo congolês. – https://www.dw.com/pt-002/barragem-do-inga-falsa-esperan%C3%A7a-para-o-povo-congol%C3%AAs/a-17485458

 

Círculo 4F, Martinho Júnior, 9 de Dezembro de 2022.

CÍRCULO 4F.

 


Imagem: África não precisa de um novo conflito: Desafios diante da maior barragem do continente – Há uma infinidade de canais que trazem água do Nilo para irrigar fazendas e abastecer cidades. O Nilo apoia a agricultura e a pesca. Historicamente, o rio também serviu como importante rota de transporte por milhares de anos no Egito antigo. Mas agora, com a primeira fase de enchimento da barragem concluída, a pressão será ainda maior para que a União Africana faça jus ao ideal de unidade e solidariedade promovido pelo próprio Haile Salassie para resolver essa disputa de uma vez por todas. – https://www.pordentrodaafrica.com/noticias/africa-nao-precisa-conflito-desafios-diante-da-maior-barragem-do-continente

 

Alguns textos de suporte:

 

Antecedentes de Martinho Júnior:

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